sábado, 25 de junho de 2011

DJANGO DE AREIA BRANCA - RN

POSTADO POR CARLOSJUNIOR 0 COMENTÁRIO
Quem não recorda a era dos bons filmes de faroeste (é o novo!) “Um dólar furado”. “Django não perdoa, mata”  e por aí vai. Você pode estar se perguntando: e o que isso tem a ver com o carnaval de Areia Branca? Simplesmente é uma página histórica, indissociável do nosso carnaval. Afinal, por cerca de 25 anos, nada mais nada menos do que Franco Neto, o Django tão famoso abrilhantou o carnaval da salinésia.
Você já ouviu falar em Francisco Soares de Souza? Não?! Ah, é verdade mesmo que não saiba quem é. Mas se você tiver pouco mais de 25 anos duvido que não tenha ouvido falar, em tempos de carnaval, de DJANGO. Pois é isso mesmo. O Francisco Soares de Souza é o nosso DJANGO em carne e osso. É o clone perfeito do famosíssimo ator norte-americano.
Francisco Soares (atual)
É um areiabranquense da gema, nascido aos 04 de abril de 1936, filho de família humilde, seus pais eram Adauto Soares de Souza e Luíza de Souza. Para ajudar no sustento da família, o garoto, com oito anos de idade ia lá para o mercado do peixe ajudar os pescadores quando chegavam da pescaria. Ganhava uns peixinhos, trazia para casa, a mãe arrumava direitinho e, lá vai ele saindo pelas ruas vendendo os peixinhos para trazer uns trocadinhos para sua família.
Para ele a batalha pela vida foi dura desde cedo. Quando rapaz, começou a trabalhar como servente de pedreiro. Trabalho que ele achava ruim. Era dureza. E nessa batalha, foi aprendendo a sentar um tijolinho aqui, outro ali, até que começou a levantar paredes e… casas. É, o servente de pedreiro tornava-se profissional e começou a trabalhar por conta própria. Foi até a cidade de Carnaubais para construir a casa do prefeito. Valeu.
Mas o ganha pão como pedreiro é muito incerto. Tem trabalho hoje, amanhã não. É uma eterna insegurança. O nosso Django precisava de algo mais certo, fixo. Foi quando um amigo lhe estendeu a mão: o então prefeito Dr. José Alfredo o coloca como vigia avulso (contrato) pela Prefeitura Municipal. Trabalhou então no Posto de Saúde, Rádio Gazeta, Escola Técnica Comercial. Sempre dando conta do recado.
Ao longo da vida, casou-se mais de uma vez e teve dez filhos ao todo. E graças também ao apoio do prefeito José Alfredo, conseguiu uma aposentadoria que o sustenta até hoje.
Ei, mas onde é que entra o tal de Django nessa história? Vamos lá.
Primeiramente ele tinha um apelido: Chico de Gueleza. Mas, aí vêm os filmes de faroeste no então cine São Raimundo. Não é que, olhando o Chico de Gueleza com uma barba fechada, um chapéu e uma camisa preta parecia… minha nossa! Era o clone puro do Django verdadeiro. Então, o proprietário do cine São Raimundo, Rudson Lima de Góis viu a aparência dos dois em comum e… diz: Ele é Django!
E olha só: Rudson arrumava o nosso herói com todos os trajes e o colocava ao lado do cartaz do filme do verdadeiro Django. Não é que muitos achavam que se tratava do verdadeiro em carne e osso? Recebia até beijo de algumas moças, achando que estavam beijando realmente Franco Nero.
Django ao lado dos Cartazes no cinema
Django com Mariquinha (esposa)
A fama foi crescendo. Não é que Rudson leva o nosso Django para uma sessão em Mossoró? E depois vai até Limoeiro do Norte, no Ceará, quando estava programada apenas uma sessão e, por conta do sucesso da presença do nosso Django, houve duas sessões! Chegou a se apresentar em Natal e foi até a Recife, além de outras cidades.
A partir dessa aparência real, Django incorpora como personagem central do carnaval de rua de Areia Branca. Durante os anos 70 e 80, era com grande expectativa que as pessoas aguardavam a passagem de Django pelas ruas da cidade, todo trajado a rigor, barba, camisa preta, chapéu, calça, cartucheira, carregando um caixão, rodeado de uma turma de bandidos todos armados.
A volta de Django 1980

Django prisioneiros dos bandidos (capangas)
A turma seguia atrás querendo ver o desfecho daquela situação. Como Django sairia disso? E o destino deles era nada mais do que o cemitério da cidade. Mas, em determinado ponto da cidade, geralmente em frente à Prefeitura Municipal havia o primeiro duelo. Os bandidos queriam matá-lo, mas num gesto rápido e ousado, Django saca do seu revólver e… dispara um tiro. Não é que toda vez, mesmo com um tiro só ele derrubava dois bandidos!? Ao caírem, cada um levava uma certa frutinha vermelha e estourava na testa, parecendo sangue derramando. Era aplauso geral, a galera ia ao delírio. Da turma dos capangas o nome que ficou na minha memória foi o de apelido “Caju”.
Como ele gostava daquilo. Era o auge. Um simples pedreiro, vigia, sendo o centro das atenções do carnaval de Areia Branca. Mas a façanha não terminava aí. O destino era mesmo o cemitério. Lá sim, haveria o duelo final.
Chegando no cemitério, os bandidos se escondiam nas tumbas. Era um momento de grande expectativa. A multidão estava ali, observando tudo atônita. De repente, num gesto rápido, ele atirava contra os bandidos, matando um a um, e por último o chefe deles. Novamente aplausos, suspiros aliviados. Django vencera. O carnaval também.


Django – seu inseparável caixão e os capangas
Duelo final acontecia no cemitério
Hoje não há mais Django nas ruas. Uma das últimas raras aparições aconteceu em 1999, de modo tímido, sem muito apoio. Eu lhe pergunto por que ele não continua fazendo tal façanha.  “Ah, só por falta de incentivo das autoridades,”  lamenta. Ele ainda guarda em casa o pequeno revólver que abrilhantou por uns 25 anos os carnavais da cidade. Ainda tem (e me mostrou) a camisa preta, o chapéu… Disse que está velha, mas ainda dá para usar. Meu Deus, que desprezo por quem tanto fez por nossos carnavais.
A situação só não é mais trágica, porque naturalmente, algumas pessoas estão resgatando o nosso Django não mais naqueles duelos sangrentos com bandidos, mas dando-lhe destaque em blocos carnavalescos, como uma forma de reconhecimento pelo seu trabalho. É o caso do bloco Pererê, que no ano de 2003 trajou Django de caçador que prendeu Osama Bin Laden

Django prende Bin Laden - 2003
Ainda guardo na memória algumas cenas do Django carregando seu caixão pelas ruas matando bandidos.  E, como historiador, não poderia deixar de registrar nessas linhas um pouco do significado grandioso desse  “herói “ que anda quase esquecido.
Gilson de Souza
EM TEMPO: Este artigo foi escrito em fevereiro de 2003 para um site areiabranquense em preparação ao carnaval daquele ano, havendo agora apenas pequena atualização.
Infelizmente, na madrugada de domingo para segunda, dia 20 de junho de 2011, o corpo de Django foi encontrado na praia de Baixa Grande (Areia Branca/RN), em circunstâncias um tanto estranhas e ainda não bem esclarecidas, o que lamentamos profundamente seu falecimento e prestamos nossas condolências à sua família. Agradecemos a sua irmã Luzia de Gueleza, a sua ex-esposa Zefinha e ao filho Carlos a liberação das fotos e autorização para publicá-las.
Lamentamos também não ter registrado em tempo essa linda história gravando o depoimento de Django em vídeo.

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