De: Alamar Régis Carvalho Para: Francisco das Chagas Silva Assunto: Entre o que é e o que eu acho | Chasil: Existe muita diferença entre o que é e o que eu acho que é uma determinada coisa. Porém, muitos espíritas querem impor que o Espiritismo seja exatamente aquilo que a sua cabeça imagina que seja. | |||
Entre o que é e o que eu acho
O Espiritismo é uma doutrina de estudos constantes, de pesquisas, de experimentações, de racionalidade, de questionamentos, de liberdade, de sensatez, de justiça e de conscientização.
Já que é de estudos, todos nós devemos ter liberdade para estudar e ninguém pode nos condenar, por isto.
Já que é de pesquisas e experimentações, podemos pesquisar e experimentar.
Já que é de questionamentos, podemos, sim, questionar a vontade, visto que, quem questiona busca o entendimento completo, detalhado e bem raciocinado da coisa a qual questiona.
Se eu acho que você não deve pesquisar, não deve experimentar nada, não deve questionar e não deve estabelecer polêmicas nos pontos, da própria doutrina, onde surgem algumas dúvidas, sejam elas de entendimento ou de interpretação, é coerente você se submeter ao meu achismo e não pesquisar nada, não estudar nada e não questionar nada?
Só se você for uma pessoa boba, de racionalidade limitada e inteligência atrofiada.
Em tudo existe muita diferença entre o que é e o que achamos que é.
Achar que uma coisa é assim ou assado é um direito que a gente tem, posto que achar é coisa que ocorre conforme o entendimento de cada um, mas AFIRMAR que uma coisa é assim, tem que ser assim e não da forma como qualquer outra pessoa possa também achar, passa a ser um absurdo, a não ser que essa afirmativa seja estabelecida em cima de questões lógicas.
Por exemplo: Eu posso afirmar que o azul é uma cor, mas não posso afirmar que o azul é a mais bonita das cores.
Quando digo que ele é uma cor, estou fazendo uma afirmativa lógica, correta, inquestionável já que ninguém poderá dizer que o azul não é uma cor. Todo mundo concorda, porque não tem como discordar.
Mas quando ouso afirmar que o azul É A MAIS BONITA das cores, e coloco isto como verdade, aí eu já entro no campo da presunção, ao pretender que o meu gosto pessoal seja necessariamente uma verdade.
Isto acontece, demais, no campo das discussões entre nós espíritas.
O azul é uma cor Isto é uma VERDADE O azul é a mais bonita das cores Isto é uma OPINIÃO PESSOAL |
Muitos espíritas precisam aprender a separar o que é VERDADE de o que é OPINIÃO PESSOAL, INTERPRETAÇÃO PESSOAL, VISÃO PESSOAL, ENTENDIMENTO PESSOAL.
Eu seria muito presunçoso ao querer fazer com que todas as pessoas absorvessem, como verdade, a minhapreferência pessoal, o meu entendimento pessoal e a minha visão, porque estaria subestimando a inteligência dos outros, fazendo as outras pessoas de bobas e sem condição de ter entendimento próprio e direito de discernir.
É o que ocorre muito, e que termina virando motivos de discussões enérgicas em nosso meio.
Observemos alguns detalhes:
Já que a Doutrina nos ensina que Jesus é o nosso maior modelo, vale lembrar que ele afirmou que a gente conhece uma árvore, pelos seus frutos e qualquer homem racional entende isto sem muito esforço. Se uma árvore dá bons frutos, ela não pode ser considerada má.
Entretanto algumas criaturas, se perceberem, por exemplo, que o caule da árvore é de uma tonalidade marrom, uma cor que elas não gostam, terminam se achando no direito de condenar toda a árvore e todo o fruto bom que ela dá, só porque a cor do caule não é do seu agrado.
É um absurdo!
Paulo de Tarso, o maior propagador do Evangelho, sugeriu em suas cartas aos tessalonicenses: “Examine de tudo e retenha o que é bom”.
Jesus, ao perceber um cachorro morto e já em estado de putrefação, procurou ver a beleza dos dentes que tinha o animal, enquanto os seus apóstolos só conseguiam ver a podridão, na visão de que nada presta e temos que condenar tudo.
Mas será que nada disto serviu de lição para mim?
Eu passo a criar caso e até me indispor com as pessoas, só porque elas gostam de obras que eu não gosto e ainda venho me dizer espírita, que é uma doutrina de liberdade, de discernimento, de pesquisa, de observação, de coerência e de razão?
Eu condeno uma obra INTEIRA, porque nela contém alguns pontos que divergem da maneira como EU vejo, e ainda quero me dizer espírita e, ainda mais, defensor da doutrina?
Afinal de contas, a quem eu pretendo enganar?
Que capacidade tenho eu para afirmar que a obra X ou Y possuem a verdade absoluta, que é inquestionável e inabalável, e que deve ser aceita cegamente pelos outros?
Algum espírita considera coerente o católico achar que o papa é infalível? Como podemos, então, achar que as nossas visões e interpretações são infalíveis?
O pior é que tem muita gente que, para fugir da máxima “minha visão é a única correta”, pra não se expor ao ridículo, termina por ter a pretensão de querer fazer os outros entenderem o “a minha visão é a visão do Kardec”,“o meu pensamento é fiel à doutrina”. Aí danou-se tudo.
É assim que a coisa acontece: Todo intolerante espírita, que odeia confrades que pensam diferente, praticante de proibições, cerceamentos, boicotes e sabotagens a companheiros, ainda tem a presunção e o cinismo de dizer que faz isto pela “pureza doutrinária”, em defesa da doutrina!
É aquela conversa do “estamos afastando a nossa irmã dos trabalhos, PARA O BEM DELAAAAAAA”, “vamos difamar a nossa irmã, mas muito fraternalmente”.
Gente, tem sentido eu fazer, por exemplo, um Espiritismo sem espíritos e afirmar que estou seguindo Kardec, sendo que o que ele mais fez foi Espiritismo COM espíritos? Eu estou sendo é contraditório à ele.
É possível alguém, que tenha o mínimo de inteligência, admitir aqueles papas, bispos e padres que praticaram a inquisição, como representantes de Jesus, se o que o Mestre ensinou foi totalmente diferente daquilo, o inverso daquilo, já que ele foi a maior expressão da não violência da humanidade?
Como é que alguém que odeia, tortura e assassina pode se afirmar seguidor de Jesusssssss????? Qual Jesussssss??????
A sua inteligência certamente não admite, mesmo sabendo que eles afirmavam, na época, que praticavam todas aquelas atrocidades em nome da “pureza da fé”, exatamente do mesmo jeito que eu, como espírita, poderia estar praticando absurdos, em nome da “pureza doutrinária”. É exatamente a mesma coisa e você só não percebe se não quiser ou se estiver com sua inteligência atrofiada.
Em um campo mais popular podemos comparar:
Há flamenguistas que odeiam vascaínos, palmeirenses que odeiam corinthianos e vice-versa nos dois casos, chegando ao ponto de agredirem, torturarem e até matarem.
Qualquer pessoa sensata enxerga nisto um dos maiores absurdos do comportamento humano, um profundo desequilíbrio e um nível de selvageria gigantesco. O fato de odiar o outro, já é um absurdo inaceitável, que dirá quando chega ao ponto de bater, agredir, torturar e até matar. Atinge o mais elevado nível de selvageria e não pode ter outra classificação senão criminoso e assassino.
Poxaaaa, só pelo fato de uma opção por time de futebol, pessoas chegam a odiar e até matar o seu semelhante?
Exatamente este mesmo absurdo acontece comigo, quando eu discrimino um companheiro, pelo detalhe dele gostar de uma obra espírita que eu não gosto, chegando ao extremo de atacá-lo, proibi-lo, censurá-lo e até difamá-lo no objetivo de acabar com a imagem dele, mandando-o para as profundezas do inferno.
Isto acontece, demais, no universo religioso e em nosso movimento, com muito mais intensidade do que você pode imaginar.
É preciso que haja a disposição para se discutir isto em nosso movimento, porque a situação é muito mais séria e mais grave do que se pode imaginar. Não podemos ficar fingindo que não estamos vendo essas coisas acontecer, porque estaremos sendo omissos, do mesmo jeito que omisso foi o povo que viu Jesus ser assassinado e pregado numa cruz e não fez nada.
Esta bandeira que eu defendo o tempo todo, não tem nada a ver com “liberar total”, permitindo que todas as maluquices devam ser praticadas na casa espírita, em nome de Espiritismo, conforme lêem alguns extremistas radicais que, com muita má fé, comentam as minhas propostas, no sentido de fugirem desta realidade que eles mesmos são os primeiros a praticarem.
Podemos, sim, discutir e debater a prática coerente com a doutrina, sem necessidade de ser perversos, cruéis, frios e desonestos com ninguém.
Não nos deixemos levar por esses supostos donos do espiritismo que existem por aí, patrulhando a vida dos outros, enchendo a paciência dos outros, com suas supostas sabedorias, que de sabedoria não tem nada.
Amar e ser caridoso é uma coisa, ser besta é outra.
Com um forte abraço.
Alamar Régis Carvalho
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